Fotografia, florestas e reflexão. “Celebramos a passagem de Sebastião Salgado por esse mundo”

Grande nome mundial da fotografia documental, o brasileiro Sebastião Salgado morreu, aos 81 anos, no dia 23 de maio de 2025. Ficou conhecido pelo olhar sensível e comprometido com as causas socioambientais que, por meio de suas lentes, trouxe à tona registros que geram reflexões sobre questões humanas e a preservação da biodiversidade.

Ao ir além da inspirada documentação, Salgado realizou, ainda, uma ação concreta de conservação e recuperação ambiental e, assim, inspirou diferentes pessoas que atuam na área socioambiental. Entre elas, profissionais do projeto “Corredor Caipira: Conectando Paisagens e Pessoas”.

O “Corredor Caipira” é realizado pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e pelo Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária em Educação e Conservação Ambiental (Nace-Pteca) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo (Esalq/USP), com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

 

Olhar sensível e restauração realizada por Sebastião Salgado

Já conhecido pelo olhar sensível e por dedicar sua fotografia a temas sociais e humanitários e documentar mazelas humanas em diferentes partes do mundo, Sebastião, junto a sua esposa, Lélia Wanick Salgado, plantou uma floresta na antiga fazenda da família em Aimorés, Minas Gerais, que estava devastada. Ao focar na recuperação da Mata Atlântica, o casal transformou o local em uma área de restauração ambiental, num projeto que deu origem ao Instituto Terra.

Entre suas conhecidas e inspiradoras exposições, estão “Êxodus” e “Gênesis”. Em um de seus últimos projetos, retratou tribos indígenas da Amazônia. Segundo registros, afirma que “escrevia com a máquina fotográfica”, equipamento por meio do qual resolveu se expressar para o mundo.

 

Enquadramento, luz e técnica somados à cultura, às pessoas e ao ambiente

Integrante da equipe de comunicação do “Corredor Caipira”, a jornalista e especialista em marketing Jéssica Lane fala sobre a influência de Salgado no seu trabalho.

“Tive o prazer de ver ao vivo uma exposição de Sebastião Salgado. Para uma entusiasta da fotografia na época, ainda longe da possibilidade de comprar minha primeira câmera, observar cada foto me compelia ao exercício de me perguntar como ela foi tirada. Cheguei a algumas conclusões que levei posteriormente para a profissão e para vida:

Paciência para esperar o melhor momento. A iluminação certa, o clima correto, a melhor pose uma hora chega. Mas a fotografia documental exige a ação da espera. Sim, ‘ação’. Aguardar pacientemente é ação: visitar o local várias vezes e observar a luz e sombras nas horas do dia, o comportamento do objeto observado, testar cliques, se posicionar no ambiente.

Olhar atento é primordial. Ao enquadramento, à luz, à técnica? Sim. Mas, ainda mais à cultura, às pessoas, ao contexto, ao ambiente. A melhor hora chega, mas o instante é rápido demais a olhos desatentos!

Humildade: quem faz fotografia documental precisa desinflar o ego, ter discrição e consciência de que não é o centro das atenções. Retratar a realidade é pedir licença, conhecer, ganhar confiança e aí, discretamente, clicar o que vê, respeitando a realidade (e não a idealização do seu clique ‘perfeito’).

Ainda que sua fotografia tenha gerado um legado imenso na arte e no fotojornalismo, resolveu, na década de 90, fazer mais.

Ao olhar e clicar sobre o abismo das mudanças climáticas, o abismo o olhou de volta e ele respondeu ao convite de agir. Assim, nasce o Instituto Terra, em Minas Gerais, plantando mais de 2 milhões de árvores e restaurando uma região importante próxima ao Rio Doce que, de um lugar praticamente desértico, é hoje uma floresta viva e biodiversa, com viveiros para auxiliar mais restaurações a acontecerem.

Por isso, celebramos a passagem de Sebastião Salgado por esse mundo: cultivando na arte, na comunicação e na terra, sendo agente de mudança – com paciência, olhar atento e humildade. Seu exemplo fica conosco”.

Escrito por Jessica Lane, jornalista, especialista em marketing e parte da equipe de comunicação do Corredor Caipira e Rafael Bitencourt, jornalista e coordenador de comunicação do Corredor Caipira