Neste texto, será explicado como o projeto “Corredor Caipira: Conectando Paisagens e Pessoas”, que tem patrocínio da Petrobras, realizou o cálculo estimado dos estoques de carbono em áreas de vegetação nativa, durante levantamento em fevereiro de 2026.
O “Corredor Caipira” é realizado pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e pelo Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária em Educação e Conservação Ambiental (Nace-Pteca) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo (Esalq/USP). O patrocínio é da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Cenário de aquecimento global
Considerando um cenário de aquecimento global, há vários gases que provocam o efeito estufa (GEE), os principais são: o dióxido de carbono – CO2, o metano – CH4, o óxido nitroso – N2O, o ozônio (O3) e os clorofluorcarbonos – CFCs. Esses diferentes gases de efeito estufa têm diferentes potenciais de aquecimento e para padronizar e comparar o impacto climático das emissões de diferentes gases, a unidade métrica utilizada é o dióxido de carbono equivalente.
O potencial de aquecimento do metano – CH4 é 27 a 30 vezes mais intenso em um horizonte de 100 anos. Quando considerados apenas os 20 anos após a sua liberação na atmosfera, o metano tem um potencial de aquecimento global mais de 80 vezes maior do que o dióxido de carbono (CO2)[1].
Legislação
No artigo 2º da Lei 15.042 de 11 de dezembro de 2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), a unidade de medida métrica tonelada de dióxido de carbono equivalente é definida como:
XXXIII – tonelada de dióxido de carbono equivalente (tCO2e): medida de conversão métrica de emissões ou remoções de todos os GEE em termos de equivalência de potencial de aquecimento global, expressos em dióxido de carbono e medidos conforme os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC).[2]
Enquanto remoção de GEE é definida na Lei 15.042, no artigo 2º, como:
XXXI – remoção de GEE: absorção ou sequestro de GEE da atmosfera por meio de recuperação da vegetação nativa, restauração ecológica, reflorestamento, incremento de estoques de carbono em solos agrícolas e pastagens ou tecnologias de captura direta e armazenamento de GEE, entre outras atividades e tecnologias, conforme metodologias aplicáveis.
Áreas de restauração ecológica
Nos levantamentos realizados para monitoramento das áreas de restauração ecológica do “Corredor Caipira”, foi avaliado o crescimento da vegetação e quantificada a remoção de CO2 da atmosfera usando a unidade métrica dióxido de carbono equivalente (CO2e).
No projeto “Corredor Caipira”, o cálculo das remoções de CO2e começam na estimativa da quantidade de biomassa das plantas nas áreas restauradas. Essa estimativa é feita por um sistema de amostragem baseado na instalação de parcelas com tamanho superficial conhecido, no nosso caso usamos parcelas de 200 m² de terreno.
As parcelas individualmente configuram uma unidade amostral. Dentro das parcelas de 200m² todas as plantas presentes em seu interior são identificadas por espécie e medidas. As medidas tomadas são diâmetro do tronco e altura total. Para transformar essas dimensões lineares (diâmetro e altura) em unidade de massa (kg), é utilizada uma equação matemática desenvolvida na tese de doutorado do Eduardo Gusson (Gusson, 2014)[3] na Esalq/USP, desenvolvida especialmente para áreas de reflorestamento com espécies nativas no interior do Estado de São Paulo.
Equação de Gusson
A equação de Gusson (2014) permite que os dados de cada planta medida sejam transformados em uma estimativa de biomassa. O somatório da biomassa de todas as plantas presentes no interior da parcela perfaz a biomassa daquela parcela. No processo de amostragem são realizadas dezenas de parcelas. Os dados dessas parcelas são, então, submetidos a uma análise estatística que indica qual o valor médio de biomassa por parcela, assim como o grau de confiabilidade estatística das estimativas que foram geradas.
A partir da estimativa da biomassa, é usado um fator de conversão de biomassa seca para carbono. O fator empregado é 0,47 foi o recomendado pelo IPCC (2006)[4] o que significa que 1 tonelada de biomassa corresponde a 0,47 tonelada de carbono. Para converter toneladas de Carbono (C) para dióxido de carbono equivalente (CO2e), multiplica-se a quantidade de carbono por 3,67. Esse fator baseia-se na razão entre as massas moleculares do CO2 (44g/mol) e do C (12g/mol), ou seja, 44/12≈3,67.
Resultados do cálculo de estoques de carbono
No mais recente levantamento realizado para monitoramento das áreas de restauração do “Corredor Caipira”, em fevereiro de 2026, a vegetação após 40 meses do início da restauração apresentava biomassa média de 16,16 toneladas por hectare, com um intervalo de confiança que variava de 13,0 e 19,3 toneladas por hectare, com 90% de probabilidade.
Considerando uma quantidade total de 50,5 hectares de áreas restauradas com 40 meses, a vegetação nessas áreas apresentava quantidade total de 816,7±157,9 toneladas de biomassa, com remoção de 1.407,4±272,2 t CO2e da atmosfera.
Referências
[1] https://www.unep.org/pt-br/explore-topics/energy/fatos-sobre-o-metano
[2] https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2024/lei-15042-11-dezembro-2024-796690-normaatualizada-pl.pdf
[4] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change (2006). 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories, Volume 4: Agriculture, Forestry and Other Land Use.
Foto: Girlei Cunha
Escrito por Girlei Costa da Cunha, engenheiro florestal e consultor florestal do projeto “Corredor Caipira”

