Os efeitos das mudanças climáticas são cada vez mais sentidos pela população, com eventos extremos mais frequentes, que acarretam grandes tempestades e enchentes, como as que atingiram do Rio Grande do Sul no início de 2024, e também períodos de grandes secas, a exemplo do que tem sido percebido em diferentes partes do Brasil no segundo semestre do mesmo ano, quando ocorreram incêndios florestais em diferentes partes do país.
Entre os locais atingidos pelas queimadas, está a área do interior paulista abrangida pelo “Corredor Caipira: Conectando Paisagens e Pessoas”, projeto realizado pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e pelo Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária em Educação e Conservação Ambiental (Nace-Pteca) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/Universidade de São Paulo (Esalq/USP), com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
No dia 21 de março de 2025, a professora Nathália Nascimento, coordenadora do Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca), da Esalq/USP, ministrou, na Câmara de Vereadores de Piracicaba (SP), a palestra “Mudanças do Clima em Piracicaba: Crise e Emergência”.
Mudança de temperatura

Na oportunidade, Nathália apontou que, desde meados da década de 1960, é possível observar anomalias de temperatura na região. O que foi demonstrado com gráficos apresentados pela professora, que reúnem barras que alternam entre cores azuis e variações de vermelho (que indicam temperaturas altas cada vez mais frequentes).
“Percebemos que, de 2022 a 2024, nós temos essas barras maiores, cor de vinho, bem no extremo, de aumento de temperatura. Foi quando nós ultrapassamos o limite de 1,5º C. Nós falamos hoje de acordo de Paris, de políticas para tentar manter o limite de 1,5º C global, mas regionalmente nós já ultrapassamos muito. Na maior parte das cidades do estado de São Paulo já temos um aumento acima de 2º C”, afirmou Nathália.
A educadora abordou os problemas gerados aos seres vivos pela mudança nas temperaturas.
“Quando alteramos a temperatura, quando mudamos esse ambiente, nós estamos alterando a vida das pessoas que convivem conosco. E não só das pessoas, da fauna, da flora, do Rio Piracicaba, das florestas. Estamos transformando a forma não só como nós lidamos com a natureza, mas também como nós lidamos com os mais velhos, que têm uma faixa etária mais vulnerável, e ainda com questões de gênero. A crise climática é uma questão de problemas sociais, de direitos”, disse a professora.
Aquecimento global
Nathália apontou o grande efeito dos gases de efeitos estufa no aquecimento global, especialmente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, que têm o maior potencial de aquecimento atmosférico.
“O potencial de aquecimento dos gases que emitimos hoje não é imediato. Em 20 anos, há um grande potencial de aquecimento de metano, e em 40 anos, é o grande potencial de aquecimento de dióxido de carbono. O que nós lançamos com nossos carros hoje, vai aquecer daqui a 40 anos, vai afetar a vida dos nossos filhos”, indicou.
Consequência
De acordo com o engenheiro e consultor florestal do “Corredor Caipira”, Girlei Cunha, o aumento da emissão de gases de efeito estufa é uma das consequências da mudança do uso da terra e floresta.
“O termo envolve o desmatamento e a própria mudança do uso da terra, normalmente para atividades agropecuárias. O que significa uma alteração mais profunda do que o simples corte das árvores e representa a eliminação da cobertura vegetal e todo o material orgânico que a acompanha, acima e abaixo do solo”, diz.
Uma forma eficaz de remover os gases de efeito estufa da atmosfera é por meio do reflorestamento e da restauração ecológica, o que dialoga com um dos objetivos do “Corredor Caipira”.
O projeto visa favorecer o estabelecimento de paisagens sustentáveis, por meio da conservação e da restauração ecológica; a gestão do território e a produção sustentável, tendo como destaque o fomento de corredores ecológicos que conectem, além das áreas com relevante importância para a manutenção da biodiversidade, saberes e políticas públicas, a fim de promover sustentabilidade e melhores condições existenciais.
Legado amargo
Nathália Nascimento afirmou em sua palestra que os efeitos sentidos hoje pela população são devidos às emissões iniciadas na década de 1960. E, atualmente, os índices são muito grandes.
“Hoje, nós estamos batendo recorde de emissões de gases de efeito estufa. O que nós estamos emitindo hoje não se compara com o que a geração da década de 1960 emitiu, apesar de estarmos sofrendo as consequências das emissões desse período e estar muito difícil”.
“Imaginem a geração que vai sofrer as consequências do que estamos emitindo. É muito pior. A herança que estamos deixando para as gerações futuras é muito ruim”, lamenta.
De acordo com a coordenadora da Oca/Esalq/USP, os gases emitidos hoje não têm impacto imediato, entretanto, seus efeitos podem se manifestar em até 40 anos.
“Estamos colhendo as consequências de ações tomadas nas décadas passadas e hoje estamos batendo recordes de emissões. O legado que estamos deixando é muito ruim, muito amargo”, disse.
Frente parlamentar
A palestra “Mudanças do Clima em Piracicaba: Crise e Emergência”, ministrada pela professora Nathália Nascimento na Câmara de Vereadores de Piracicaba compôs a programação do lançamento oficial da Frente Parlamentar de Combate à Crise Climática, iniciativa da vereadora Silvia Morales (PV), do mandato coletivo “A Cidade é Sua”.
Fotos: Rafael Bitencourt
Escrito por Rafael Bitencourt, jornalista e coordenador de comunicação do Corredor Caipira

